Tristeza era uma mulher faminta

Tristeza era uma mulher faminta. Tinha muitos caninos num sorriso duvidoso. A Tristeza era condenada, uma figura muito esguia, mas muito linda, mas muito tonta, mas muito forte. Um pouco burra, um pouco cega, nada óbvia. Ela sentia aquele martelar irritante da Sensibilidade, sua vizinha do lado esquerdo. Do lado direito, Ansiedade mantinha aquele silêncio assustador, surpreendendo sempre quando vinha bater à porta depois de esquecida, pedindo um pouco de açúcar ou comentando as notícias. E a Tristeza, falsa, fingia não ter esquecido dela e fingia gostar de Sensibilidade; Tristeza com tantos caninos, tão azul, tão assustadora. Era uma mulher de negócios e vivia viajando. Levava e trazia sempre bagagens pesadas, coisas velhas a se livrar, coisas novas para usar.
Tristeza era uma mulher faminta, mas muito farta.

Manifesto da Espontaneidade*

Declaramos, a partir de agora, amor às atitudes impulsivas, aos corações vulcânicos e às eternas almas ansiosas.

Abaixo os garotos de joelhos limpos o dia inteiro; as idas às sorveterias sem camisas manchadas ou mãos grudentas na volta; as pessoas que sabem de tudo; os adolescentes muito tranquilos; os sorrisos contidos ou gargalhadas forçadas; as formas perfeitas e milimetricamente proporcionais; as meninas bem penteadas no final do dia de escola; as vitórias sem comemoração; as derrotas sem sofrimento; as declarações de amor sem clichês; as fofocas sem exageros; os namorados que não vivem grudados. Abaixo os concursos de beleza; os hinos cantados sem amor; os livros de auto-ajuda; as frases prontas; macarrão instantâneo; tempero pronto; festa com hora pra acabar; reuniões de família sem briga; viagens sem imprevistos; caminhões sem frases de pára-choques; as peladas sem hematomas para exibir depois; as férias sem histórias pra contar. Abaixo as paredes vazias; as carteiras de escola sem desenhos; as geladeiras sem ímãs “disk-pizza”, ou “disk-gás”; os quintais sem plantas; as casas sem o quarto da bagunça.

Fora os gatos sem unhas; os livros sem manchas e lombadas estragadas; os porta-retratos no aparador só com fotos de estúdio; os armários sempre arrumados; as roupas de cama sempre bem esticadas; a mesa sem muito farelo depois do café-da-manhã; a padaria sem fila; a sessão de cinema sem um grupo de adolescentes gritando às vezes no fundo da sala; gente que não tem alguma combinação exótica de comida preferida; jornal sem horóscopo.

Declaramos também oposição radical aos que andam menos distraídos que entediados.

 

White tulip

 

*Reedição de um texto antigo do Infinito Público.

 

Veja bem,

A vida passa mais devagar sob a luz da tardinha. Seja porque seu tédio vespertino fica um tanto melancólico nesta luz amarelo-alaranjada, seja porque o relógio de ponto se arrasta até as dezoito horas. “Hoje dá meia-noite, mas não dá seis da tarde”, é o que dizem nas quartas-feiras. E nas quintas e sextas, e nos outros dias (in)úteis. E nos finais de semana, é a luz que entristece teu ócio, aquela luz bonita que vem da varanda bater em toda a parede da sala do teu apartamento poente. Tomara que você a veja, as vezes; pena se estiver trancado em algum shopping sem sentir o tempo passar. Porque viver é sentir esse tempo que passa e que, na tardinha, passa mais devagar.

A saga da escritora

Caramba, se passam os dias, as horas passam, os minutos em frente a uma tela limpa esperando que você escreva algo correm com os ponteiros do relógio. E não sai nada. Nadinha. Uma gota de inspiração, uma imagem abstrata para ser analisada, uma ideia vaga a ser compreendida com tuas divagações sintáticas… nada vem à tua cabeça. Nem titica de galinha, nem uma piadinha sem graça. E por isso mesmo você se sente na obrigação de escrever, porque parece que existe então um muro de concreto entre o que você quer dizer e o que sai no papel, e esse muro precisa ser destruído, a todo custo.
Logo, a loucura invade. Cinco minutos sem nenhuma picada de filosofia ou revolta social para se escrever algo realmente bom. A ponta da caneta está ficando maior, inchada, a tinta está escorrendo, ela precisa escrever e você aí parada! O papel virou um monstro, e você descobre, de repente, que odeia o branco. Você gosta de branco sujo, escrito. Rabisca, rabisca. “Ó mundo cruel”, “vamos, larga de ser insosa, escreve algo que preste”, “ô mulher louca”. Levanta, vai até a geladeira, bebe um copo d’água bem gelada, procura algo que engorde na despensa; volta para o computador, ou para o papel, ou para o azulejo, ou para o espelho embaçado do vapor do banho, você precisa escrever.
É quando toca o telefone. O barulho irritante, você só quer escrever, mas o telefone tem que tocar em momentos inoportunos, é de praxe. “Alô”, um alô surdo, mudo, cego, incompreendido, um alô desencantado, de alguém que só quer escrever qualquer coisa, algo que uma criança na alfabetização conseguiria. É aquele seu amigo de prosa, olha só, não se falavam há meses! É aquele outro louco que pensa muito e tem coragem de dizer para você – e ouvir de você – todas as idéias absurdas meditadas. E vocês dois entram num papo – depois dos “como vai a Fulana?” e “o que anda fazendo?” – incrivelmente montanha russa, discutindo a atual situação econômica do país enquanto um defende um ponto de vista e outro diz que “não é bem assim…”. Horas depois do relaxamento mental no telefone com teu amigo – horas, mesmo -, marcam naquele boteco para beber até criar uma nova Teoria da Relatividade. Taí uma ótima oportunidade para se escrever algo bom.
No outro dia, você descobre que escrever dói, dá enjôo e te deixa tonta, tonta. Pensa em desistir do hobby, da profissão, você não leva jeito, mesmo. Mas eis que a ponta do grafite guia sua mão até o papel desgraçadamente limpo de ontem e escreve. Sozinho. Escreve, rabisca e desenha espirais. E escreve mais. Escreve até que seus dedos cansam e você é obrigada, por força maior, a soltar o instrumento de milagre. Ali está o que foi tecido por você. Um belo texto, um rascunho de uma obra, um amontoado de palavras juntinhas, tortas, e que dançam diante dos seus olhos. Olha que fantástico, que bonito, que surpreendente! São palavrinhas vivas, células da sua arte. Mas será sua a arte que ali está? Não. Ela não é sua. Nasceu, apenas, de você. E agora que saiu, não te pertence mais. Contente-se com o que ainda há de nascer, e liberte aquilo que ali espera para ser lido: depois que escrevem, os escritores são só leitores. Depois que lêem, se transformam. Depois que você se transformar, cara Escritora, escreva de novo.

Sobre péssimas notícias nos últimos dias II

Mesmo com crise as pessoas compram. Mesmo com sinal ruim, todo mundo está conectado. Mesmo com escândalos em mil esferas sociais, ninguém está escandalizado. Mesmo com as claras mentiras das manchetes, ninguém está desconfiando. Mesmo sem nunca ter ouvido falar, todo mundo pede autógrafo. Mesmo lendo sobre tudo, poucos leem até o final. Mesmo em meio a tantas fotos sorridentes, as pessoas estão sérias e tristes, cabisbaixas mesmo, sempre a olhar para alguma coisa em suas mãos. Mesmo conhecendo muita gente, tem gente que acaba sozinho no domingo à noite. Mesmo parecendo se divertir muito, as pessoas preferem postar a diversão – será que se divertem mesmo?

Mesmo super informados, estamos todos burros.

 

Título

O título é sempre a parte mais difícil de um texto. Qualquer texto. É porque escrever, por mais trabalhoso que seja, é algo que de alguma forma flui; e cada frase, por mais bem pensada que seja, nunca terá o mesmo peso do título. Nem a frase de encerramento do texto, ou a frase que o introduz. Qualquer palavra fica muito pequena no título e a sensação de que dar um título a um texto é como dar um nome a uma pessoa é muito forte; é uma responsabilidade sem tamanho, nomear aquele textinho para sempre…! Claro que muitas vezes dá para editar, trocar o nome, reinventar. Mas não tô falando desse processo, tô falando do depois, quando você lança o texto para o mundo. Aí, já foi. Ele já tem nome, personalidade, não há mais nada que você possa fazer por ele, a não ser observá-lo de longe e estar sempre ali pra responder por ele quando necessário. Um texto que muda de nome depois que chegou às mãos do leitor fica irreconhecível, porque o título é como o rosto de alguém: você primeiro olha pra ele e, mesmo que seja uma análise muito rápida, é a partir dali que você constrói aquela pessoa – no caso, aquele texto.

Ponha-se no lugar do leitor: quando você lê um livro, ou conto, ou qualquer outra coisa traduzida e em traduções diferentes os títulos, mesmo que muito parecidos, terminam com alguma diferença. Você tem sempre o seu título preferido e, obviamente, vai ler o texto do título preferido; é o mesmo texto, traduzido de um jeito que você julga ser melhor, porque o título é melhor, ou porque você já se acostumou com aquela tradução. E não adianta dizer que lá, na língua da edição original, é o mesmo texto: seja o corte de cabelo, a maquiagem, os acessórios, qualquer outra coisa, você prefere o texto que você foi mais com a cara. O texto do amor ao primeiro título.

 

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– Que adianta o sonho de uma vida bucólica se nós já estamos contaminados com todas as doenças da cidade grande? Não falo da gripe, mas da falsa segurança de farmácias 24h e hospitais com UTI; não é sobre depressão, mas sobre individualismo; não é a obesidade, mas a preguiça de plantar o que comer; não são os problemas de coluna, mas o conforto de espumas e molas para todos os lados…
Não é a neurose dos horários apertados e dos engarrafamentos, mas a satisfação em ter uma agenda cheia, compromissos sempre por vir, alimentando a ansiedade da gente; não é a ansiedade da gente, mas a sensação interminável de que a vida está passando e é curta. De que adiantarão, então, o silêncio acolhedor da natureza, o cheiro sempre fresco de folhas, frutas e terra molhada; a tranquilidade de uma rotina condicionada não por horários marcados, mas pelo nascer e morrer do sol?

– Ora, é aí que adianta a vida, mulher: não pensar que está vivendo; só viver de verdade.

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